Santa Evita
A Argentina vive de ídolos. Afirmam que José de San Martin, general e libertador da Argentina e Chile das mãos espanholas, é um santo (com direito a maosoléu na Igreja Metropolitana de Buenos Aires). Já o jogador e agora técnico do time nacional, Diego Armando Maradona, é deus e Evita Perón, claro, uma santa. As regras que fazem de um cidadão normal um ser fenomenal para os argentinos pode ser algo impossível de entender. Até porque Maradona possui, além de sua genialidade para o futebol, poucas qualidades divinas. Já Evita é uma das várias e grandes polêmicas locais. Para alguns, uma populista infernal e para outros uma protetora das crianças, velhos, mulheres e descamisados.Diante de tanta polêmica, a própria Evita escreveu uma autobiografia entitulada "A razão de minha vida", publicada em 1951 e que em quatro dias vendeu 145 mil exemplares. O livro conta como Eva Duarte (seu nome original), filha ilegítima de um político, saiu das camadas mais humildes da sociedade argentina e aos 15 anos mudou-se com a mãe para Buenos Aires. Foi na capital que Evita começou a carreira como atriz de rádio e cinema. A cidade também foi cenário para o encontro com o militar Juan Domingo Perón e, algum tempo depois, da famosa revolta popular de 17 de outubro de 1945, quando Perón estava preso e foi libertado das grades através da pressão popular. Nesse momento, a estrela de Eva começou a brilhar na Praça de Maio e na cena que marcou o mundo inteiro discursando para milhares de pessoas da sacada da Casa Rosada. Imagem repetida diversas vezes pelo casal e copiada por muitos que seguem os passos do populismo. Faltava pouco para que Eva ganhasse o apelido de Evita pelas ruas e se tornasse a primeira dama a participar das fotos oficiais de um presidente da Argentina.
Seu poder político
Inspirado na autobiografia de Evita, o museu batizado com seu nome na capital portenha foi planejado para ajudar no intrincado processo de decifrar a personalidade de Evita Perón e do Movimento Peronista. A mostra começa com uma das inúmeras frases tipicamente populistas da "santa" registrada em seu livro: "Alcancei na vida tudo o que uma mulher pode desejar, sou amada pelos pobres e odiada pelas oligarquias". Já a publicação foi leitura obrigatória nas escolas da época, muitas delas contruídas pelo presidente Perón e que foram batizadas com o nome do casal, uma prova de que há muito tempo na Argentina o tamanho do ego é um elemento fundamental para o sucesso. Juntos, além de dezenas de escolas, construíram asilos, projetos de turismo infantil e casas de profissionalização. Entretanto, a maior ênfase do trabalho de Evita era com as mulheres. A primeira dama da Argentina, junto com o marido eleito em 1946, foi a grande defensora de uma lei que permitiu a elas o direito de voto. A conquista, aprovada pelo Congresso em 1947, foi a consagração de Eva Perón. Já a criação do Partido Peronista Feminino foi a segunda parte de um plano para as eleições seguintes. A estratégia era de que houvesse o maior número possível de mulheres com poder de decidir a política em 1951, garantindo assim a permanência do marido no poder. Com o apoio das argentinas, Perón foi reeleito com mais de um milhão de votos de diferença do segundo colocado. A ganância política de Evita só não foi mais longe porque a primeira dama morreu no ano seguinte, com apenas 33 anos de idade, vítima de um câncer fulminante no útero.
O mistério que durou 14 anosComo toda santa que se preze, sua história merecia mais ingredientes angustiantes e melodramáticos. O corpo de Evita atravessou as ruas de Buenos Aires diante das lágrimas de dois milhões de portenhos que ficaram em luto por um mês. No entanto, o que aconteceu com o corpo embalsamado da primeira-dama permaneceu um mistério por 14 anos. Os planos seriam de colocar o corpo da diva no lugar de um monumento que estava quase concluído na capital. No entanto, quando a Revolução Libertadora retirou o enfraquecido presidente Perón do poder em 1955, o cadáver de Evita foi sequestrado e desapareceu. Muitas teorias foram criadas a partir do sumiço. O que se descobriu muitos anos depois foi que Evita Perón havia sido enterrada na Itália sob o falso nome de Maria Maggi de Magistris e somente em 1976 foi devolvida ao povo argentino. Hoje, Evita Perón descansa em paz no cemitério da Recoleta, numa tumba que não faz jus a sua grandiloquência, mas sempre com flores, junto com outros membros da família Duarte. Nada restou do luxo que ela apresentava em seus trajes e de seus discursos marcantes na Casa Rosada. Na política e na sociedade tampouco. Os ídolos da Argentina parecem ter o fim de qualquer cidadão comum: do pó voltam ao pó.
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